Vermelho

 

Abri a porta e lá estava ela parada. Chorava. Chorava muito e o azul dos olhos agora era acompanhado de um vermelho disperso em meio a tantas lágrimas

 

 

Nem precisava que abrisse a boca para que soubesse que queria ser desculpada.

 

Queria voltar atrás das palavras duras e impensadas proferidas algumas horas antes.

 

Há, se ela não fosse tão encantadora, acho que teria feito com que pagasse aquelas palavras. Teria me vingado, teria sido muito cruel e talvez feito o que ela realmente temia: Mandado que voltasse para o lugar de onde tinha vindo e não me procurasse mais.

 

Mas meu desejo sádico sabia que aquele era o momento.

 

As palavras saiam da boca dela como em um filme mudo e eu não conseguia escutar porque meu cérebro pensava em outras coisas. Pensava e fazia.

 

Limitava-me a conduzi-la. Sentei na cadeira e dizia só o necessário, coisas como "tire a roupa", "deite sobre minhas pernas", "apoie as mãos no chão", "conte comigo".

 

E o som dos tapas era música. E ecoavam como que arranjados em uma composição melodiosa, ao tempo que a pele branca ganhava os contornos dos meus dedos, da minha mão.

 

Depois de um tempo, não se definia mais detalhes, era uma grande área rósea, rubra em alguns pontos.

 

Só o choro ainda continuava, mas agora os olhos azuis sorriam e era o choro de felicidade, de quem se sabia perdoada e querida e que agora ia pensar duas vezes para falar o que não devia.