SÁBADO DE CHUVA

 

Nem sempre os sábados de chuva são os dias que costumam ficar mais vivos na nossa memória.

 

Mas aquele não era um sábado comum. Era o sábado no qual eu iria ter pela primeira vez em meu braços duas mulheres simultaneamente.

 

É quase uma presunção escrever isso, porque sinto que não houve quem tivesse alguém naquela noite chuvosa. Elas foram tanto minhas como eu fui delas e elas, uma da outra.

 

Livres. E felizes.

 

Quando chegamos a casa dela, Olhares de cumplicidade anunciavam o óbvio, que somente a minha inocência da época permitiu tentar ignorar.

 

Sentamos, ela foi à cozinha, enquanto minha companhia sentou-se em meu colo e começou a dizer em meu ouvido para que acompanhasse o olhar dela, que ia justamente para a cozinha e parava nas nádegas de nossa amiga.

 

Belo corpo, bela bunda. E ela notou antes de mim. Será? Naquele momento eu me permiti olhar com o olho do predador sobre a caça. Mas éramos dois na caçada.

 

DOce engano. Éramos três, porque quando ela se voltou para nós e trazia a garrafa de vinho e uma bandeja, os olhares mais uma vez se mostraram sem fronteiras, devassos, libertinos e desejosos uns dos outros.

 

Mas mantivemos a compostura. Pelo menos até o vinho daquela primeira garrafa estar em nossas veias. Dai por diante, ainda em meu colo mas agora displicente e exibindo cada pedaço da sua pele possível, minha companhia fazia o seu corpo e de sua amiga tocarem-se.

 

Para observar o fecho da gargantilha, mãos e dedos percorreram nucas, deslizaram em pescoços, colos.

 

Averiguando marcas de bronzeado, tecidos subiam e se deslocavam em pernas e quadris.

 

Deixando evidente o que iria acontecer, chegou a hora do batom. Alguém já se deu conta do que significa passar batom, mostrar os lábios unidos, oferecendo um beijo? Naquela hora, achei que quase indecente, se eu não fosse completamente devasso, teria achado.

 

Um batom cuja cor eu não me lembro, teve o atributo sabor levado em consideração. E foi o primeiro beijo que recebi da minha namorada enquanto exibição. Responsável pela avaliação do sabor, não posso me dizer surpreso quando ela disse a amiga:

 

- Beija ele!

 

Um silêncio de incalculáveis horas (na verdade, foram segundos) seguiu-se quando os três pares de olhos cruzaram-se de todos os modos possíveis, buscando respostas e fazendo perguntas.

 

- Para ele poder comparar os sabores - Explicou minha doce companhia. 

 

Não gosto de ser vítima dos acontecimentos e sem perder tempo me levantei e fui direto para boca de nossa amiga. Já não era preciso subterfúgios ou moralismo banal. Beijei, senti, bebi, me afundei nos lábios dela. Meus ouvidos escutaram um suspiro do meu lado e foi minha vez de falar:

 

- Vem, beija ela! Acho que fica melhor sem o batom.

 

Afastei o corpo e vi um dos beijos mais intensos da minha vida. Entre duas mulheres, o primeiro também.

 

E quis retribuir o que via. Beijos se seguiram, meus, delas, nossos.

 

Fomos para o quarto e a noite chuvosa de sábado estava começando.